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A dona da festa.

Escuro... Escuro. Escuto um barulho no meio da escuridão e removo a pedra de minha caverna. Ela lá fora me chamava pra correr. Eu? correr? Pensei isso não era pra mim. Mesmo assim doeu muito. Eu dei um sorriso pequeno tentando esconder meus desejos e nada disfarçou meu interesse. Andamos poucos minutos e chegamos ao fim da caminhada fatigados pelos calos nos pés e eu que não gostava de caminhar pensei em desistir. Descalço, ali vesti minha roupa de missa e ela deu-me sua mão, íamos a festa juntos. Ah! que festa linda era aquela. Tantas músicas tocavam na radiola e era a primeira vez na minha adolescência que uma garota me chamava pra ir à uma festinha da escola. Enquanto o escuro se dissipava e as luzes estrabóficas acendiam e apagavam no salão da festa. teu olhar piscava como duas estrelas no universo das palavras sem significados aparentes. insignificâncias de quem só escreve pra se esconder. eu o menino feio. ela a menina mais linda da escola. era um sonho. eu aluno ela minha colega...

Ciranda da Bailarina

Ela nasceu numa família de gigantes que viviam ao redor do mundo levando as flores desejantes para as crianças que insistiam em viver tristes e pelos cantos... Mas e ela? Quem é ela? Alguns a chamam de bailarina! Noutro dia vi sua mãe chamá-la de menina birrenta. "Essa menina só quer saber de dançar e cantarolar músicas aos deuses de outras terras pintadas com giz?!!!" dizia sua mãe a mim. Não me sentia nem um pouco chateado com isso. Ela sempre dançava pra mim. Éramos felizes e ninguém sabia. Havia muito amor e doçura sabedoria naquele sorriso. Suas pernas pareciam dois logarítimos estranhos.... Eles pareciam nunca se entender. Mas logo vinha uma ponta. Um pliè? Acho que era assim que ela me dizia o quanto sabia dançar na ponta dos pés.... Ela dançava muito bem lá no quintal dos meus sonhos, sonhos que eu inventei.Pintei em cores vivas só para vê-la acordar e seus sorriso dançava e dançava por entre meus dedos. Eu era feliz e sabia. Era tudo tão mágico. Como pernas que dança...

Ostra feliz não faz pérola

"Ostras são moluscos sem esqueleto, macias, que representam as delícias dos gastrônomos. Podem ser comidas cruas, com pingos de limão, com arroz, paellas,sopas. Sem defesas - são animais mansos-, seriam uma presa fácil dos predadores. Para que isso não acontecesse, a sua sabedoria as ensinou a fazer casas, conchas duras, dentros das quais vivem. Pois havia num fundo de mar uma colônia de ostras, muitas ostras. Eram ostras felizes. Sabia-se que eram ostras felizes porque dentro de suas conchas saía uma delicada melodia, música aquática, como se fosse um canto gregoriano, todas cantando a mesma música. Com uma exceção: de uma ostra solitária que fazia um solo solitário. Diferente da alegre música aquática, ela cantava um canto muito triste. As ostras felizes se riam dela e diziam: "Ela não sai da sua depressão...". Não era depressão.Era dor. Pois um grão de areia havia entrado dentro de sua carne e doía, doía, doía. E ela não tinha jeito de se livrar dele, do grão de areia...

Isso não é para refletir...

Rubem Alves, para quem não o conhece tenho uma dica interessante: "Vá até um dos maiores sites de busca, falo do Google,é claro que se você tiver outro melhor apenas digite "Rubem Alves", lá encontrarás referências importantes sobre esse que é um dos escritores brasileiros mais importantes da atualidade. Certo? Espero que sim. Após este incremento literário de markenting em favor de meu amigo Rubem, sinto-me à la vontè para transcrever ipsi literi um texto seu que me chamou bastante atenção dentro os muitos que ele escreveu em sua trajetória como escritor, filósofo e o "diabo à quatro"... o texto se chama "Ostra feliz não faz pérola", uma linda história de amor regada a pintadas de reflexões finas e molhadas... é claro pérolas tristes e encantadas. Sabe... Lendo os textos de Rubem, sinto muita inveja dele. Eu queria tanto escrever desse jeito e não sei como. Às vezes fico angustiado. Mas logo passa a dor e vem uma rasa alegria de poder ver operar-se m...

sobre o verso da dor.

Sinto-me um abandonado de mim mesmo, uma intersecção de um "lugar nenhum" para nenhum lugar fora de hora. hora ardua de chorar o sobejo perdido. a calma de sorrir da tarde que já se foi. horas perdidas por entre cheiros imaginários. um relicário de gestos que se perderam num tempo qualquer do universo passado. a finitude do universo é seu passado humano. quando ainda andava por entre os prédios de plástico. são frases e palavras retorcidas e sem sentido algum pra quem não lê. são muitas coisas e nada a escrever. um abandonado de mim mesmo. uma sensação de solidão. um gosto amargo de ser só, sem uma nota musical que possa dar dó. dó de ver e tocar. o prelúdio que avança no esquecimento de uma dor que insiste em ser dor. dor de corno ou de ódio. dor com óleo que se esparrama pelo chão da sala que eu nunca tive. ter o óleo da cozinha esparramado pela panela de arroz que eu nunca fiz questão de aprender a fazer. dor de ser simplesmente eu. solidão de não se sentir igual a minha. ...

o menino e as letras invertidas.

um moço na feira dos desejos grita: vai aí um verso qualquer? com molho de brincadeira ou um beijo atrás da igreja? ecoa uma voz por entre os ouvidos... vendem-se beijos seus na feira de desejos. um menino travesso retrucou: quanto custa seu moço? e ele respondeu: não custa nada. o menino no ápice de sua alegria, nem perguntou o porquê disto. quando então o feirante respondeu: é só cantar uma melodia melancólica e esperar enquanto desabrocha um beijo de dentro daquele flor ali. e apontando por entre os galhos secos e retorcidos, o menino viu um lindo vaso decorado com figuras infantis tão simples como o orvalho da manhã... sabe-se que o menino olhou para o vaso e não vi flor nenhuma. então com raiva e assustado, o menino perguntou: onde está a linda flor que o senhor me disse que teria neste vaso? o feirante dos desejos deu uma risada e olhando para os lados, virou as costas para o menino e saiu. sentindo-se fatigado com aquela conversa estranha, o menino andou dois passos atrás daquel...

90 dias ao lado da vovó Varinta.

Lembro quando eu ficava olhando minha vó costurar numa máquina de costurar da marca Singer, bem antiga, acho que tinha uma inscrição quase criptográfica devido ao tempo de uso daquela máquina que remontava a época da era industrial européia, ditando assim: “desde 1909”. Devia ser a data de criação da fábrica. Eu nem pensava nisso. Só penso agora que a máquina não existe mais e se perdeu no tempo da minha imaginação, quando minha vó Varinta costurava uns "conjuntinhos" que eu usava, hoje as crianças não usam mais essas roupas. Não sei se usam mais... Que pena. Era tão bom, usar as roupas que minha vó fazia pra eu sair na rua. Eu “desfilava” (não entendam isto por vias que não preciso acentuar, que não são) com aquelas roupas como se estivesse numa passarela de moda da SPFW, como que se o mais interessante não fosse meu corpo desinteressante e antierótico (nem pensava assim naqueles dias da minha infância, somente tenho saudades), mas sim, a maestria das mãos que fitaram cada l...